Máscaras e más caras
Apesar de ser o mês mais curto do ano, e às vezes o mais frio, Fevereiro, traz consigo a diversão do Carnaval capaz de nos aquecer. Quem não gosta, ainda que por poucas horas, de se fazer passar por outro alguém? Quem não gosta de deixar de lado o seu “eu” de todos os dias e fingir que é a personagem que sempre admirou?
Mas… não andará a nossa realidade trocada com o Carnaval? Será que fingimos ser outra pessoa apenas num dia no ano ou passamos todo o ano sem viver, de facto, na nossa pele, tentando agradar e esforçando-nos por ser algo que, afinal, nem gostamos? As obrigações do trabalho, as pressões da sociedade, os prazos apertados e a sensação de que o tempo corre veloz, quase nos obrigam a pôr máscaras que dizem para o exterior “Está tudo bem!” mas que deixam o interior vazio e despersonalizado.
Convido-vos, assim, à seguinte reflexão: valerá a pena pagar um preço tão alto, como o de esquecer a nossa essência pessoal e única, por uma imagem trabalhada? Não será ainda mais precioso para o nosso coração se o enchermos de sentimentos genuínos, de verdadeiro conforto emocional e de plenas alegrias com coisas simples?
Sejamos mais humanos, sem medo de nos comprometermos a dar tudo por amor. Falemos de coragem aos nossos filhos, netos ou alunos, aquela que nos faz arriscar, mesmo sem estarmos na posse de todas as certezas. As quedas, claro, podem ser mais dolorosas mas a vida terá, certamente, mais sabor. Daniel Goleman, que procurou clarificar o conceito de inteligência emocional, sugere mesmo que “os nossos sentimentos mais profundos, as nossas paixões e desejos, são guias essenciais e que a nossa espécie deve uma grande parte da sua existência ao poder desses sentimentos, paixões e desejos.”. Mais, o Programa Educacional You Can Do It! tem por base o pressuposto teórico de que o desenvolvimento das capacidades sócio-emocionais tem como consequência uma maior motivação e uma melhoria no desempenho escolar dos alunos.
Então, desfilemos pelo corso da vida de semblante leve e alegre, sem máscaras. Queiramos aprender com os pequeninos a honestidade e o sorriso rasgado ou a lágrima indiscreta. Sejamos, para eles, exemplos de verdade. Não tenhamos medo de mostrar e falar de emoções, não escondamos por detrás de algum tipo de máscara a força que às vezes foge e o ânimo que, em tantas ocasiões, arrefece. Escolhamos, em vez de más caras, expressões limpas e sinceras, partilhando o que nos vai cá dentro. Distribuamos sorrisos porque, se os semearmos, também os colheremos.
Janete Silva
Referências:
- Bernard, M. (2006). It’s time we teach social-emotional competence as well as we teach academic competence. Reading & Writing Quarterly, 22, pp: 103-119
- Goleman, D. (1995). Para que servem as emoções? D. Goleman, Inteligência Emocional. Lisboa: Temas e Debates

4 Comments:
Identificação completa... mt bom!
"O coração humano transborda de uma abundância de desejos e de aspirações: gostamos de muitas coisas, por vezes até de coisas contraditórias. Sim, é importante fazermos uma escolha dos nossos desejos. Nem todos são maus, mas também nem todos são bons. Trata-se de aprender a discernir pacientemente quais os que devemos seguir prioritariamente e quais os que devemos deixar de lado.
(...)
E eis que o nosso coração muda. E não somente o nosso coração, mas também o nosso olhar e o nosso comportamento. O nosso discernimento afina-se: sem sermos ingénuos tornamo-nos mais capazes de dialogar, de nos voltarmos para os outros, de fazermos da nossa vida uma peregrinação de confiança. E assim contribuiremos, como cristãos, para marcar o rosto do mundo que está a nascer."
Reflexão do irmão Alois na oração da noite de Sábado, dia 13.
O teu texto lembrou-me as suas palavras. Hoje espero não ter má cara. (hum...)
Gostei , menina Janete! :D
Mt 6, 16-18 ;-)
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