Companhia de Jesus
"A Companhia continua a ter mártires. Foram mortos dois jesuítas em 2008"
Entrevista Nuno Gonçalves, PROVINCIAL DA COMPANHIA DE JESUS
O Papa dá à Companhia de Jesus um papel de liderança nas questões que mais dividem a sociedade. Porquê?
É desejo de Bento XVI estarmos em situações de fronteira, e reafirmou-o ao receber-nos no Vaticano. Além de nos confirmar essas tarefas, falou do risco de estarmos aí e nas encruzilhadas da história.
Posicionamento que valeu a expulsão do marquês de Pombal!
Não é por acaso que continuamos a ter os nossos mártires. No final de 2008 foram assassinados em Moscovo dois jesuítas. Na América Latina também houve vários que deram a vida pela defesa da justiça, tal como em África.
Que opinião têm do Marquês?
A Companhia de Jesus não tem opinião oficial sobre o marquês de Pombal. Tem de se o enquadrar na Europa do seu tempo para se perceber porque é que após Portugal o mesmo aconteceu sucessivamente em vários países europeus. Tem a ver com o Estado absolutista que se queria construir então e que pretendia dominar também o ensino.
Foi um revés purificador...
Não houve possibilidade de fazer purificação porque não se nos deu possibilidade de a vida continuar.
Será expulsa mais duas vezes!
Em 1843 e em 1910. Da primeira vez havia muito poucos jesuítas e decorre da supressão de todas as ordens. Da segunda, já se tinha regressado por volta de 1850 e havia mais trabalho e património.
Há quem diga que o Estado devia pedir desculpa aos jesuítas?
É sempre um acto de dignidade reparar o erro quando se o reconhece. Mas o mais significativo que poderia fazer não era tanto aos jesuítas, mas ao ensino particular, para possibilitar um aumento significativo e concreto da liberdade de educação. De modo a que as famílias pudessem escolher a escola e o género de educação para os filhos, independentemente de condicionamentos económicos e administrativos.
Situação que o Governo não faz?
Tem uma longa tradição esta visão centralista e estatal da educação, que vem desde Pombal e que é mau para o País. Para os jesuítas, esse seria o grande acto reparador.
Sendo tão poucos, como é que os jesuítas fazem tanto?
Há muitos leigos a colaborar na mesma missão, e a nossa acção multiplica-se através deles. O importante é garantir a identidade da missão e que a nossa maneira de ser e de perceber passe para quem colabora connosco.
Há choque entre os jesuítas de diferentes idades e pensares?
Existe uma base espiritual que nos dá este ar de família. A grande diferença entre gerações é que para os novos é mais importante a vida comunitária do que para os mais velhos.
O que mudou mais?
Até há 20 anos era uma comunidade para a dispersão. Vinham refazer as forças e partiam em nova missão, mas as novas gerações dão mais importância à vida em comum e ao trabalho em equipa.
Há choques entre gerações?
Existem diferenças, mas não há choques geracionais.
E com os leigos?
Há questões práticas que é difícil os jesuítas perceberem porque estão nisto a 100% e não têm família nem horários de trabalho.
É a ordem com mais vocações.
É verdade, mas não sei a razão nem temos nenhum segredo. Há um trabalho continuado com a juventude que passa pela exigência e experiências de voluntariado que têm dado frutos em pessoas que se identificam e se querem juntar a nós. |

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