Jan & companhias

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Companhia de Jesus

"A Companhia continua a ter mártires. Foram mortos dois jesuítas em 2008"
Entrevista Nuno Gonçalves, PROVINCIAL DA COMPANHIA DE JESUS

O Papa dá à Companhia de Jesus um papel de liderança nas questões que mais dividem a sociedade. Porquê?

É desejo de Bento XVI estarmos em situações de fronteira, e reafirmou-o ao receber-nos no Vaticano. Além de nos confirmar essas tarefas, falou do risco de estarmos aí e nas encruzilhadas da história.

Posicionamento que valeu a expulsão do marquês de Pombal!

Não é por acaso que continuamos a ter os nossos mártires. No final de 2008 foram assassinados em Moscovo dois jesuítas. Na América Latina também houve vários que deram a vida pela defesa da justiça, tal como em África.

Que opinião têm do Marquês?

A Companhia de Jesus não tem opinião oficial sobre o marquês de Pombal. Tem de se o enquadrar na Europa do seu tempo para se perceber porque é que após Portugal o mesmo aconteceu sucessivamente em vários países europeus. Tem a ver com o Estado absolutista que se queria construir então e que pretendia dominar também o ensino.

Foi um revés purificador...

Não houve possibilidade de fazer purificação porque não se nos deu possibilidade de a vida continuar.

Será expulsa mais duas vezes!

Em 1843 e em 1910. Da primeira vez havia muito poucos jesuítas e decorre da supressão de todas as ordens. Da segunda, já se tinha regressado por volta de 1850 e havia mais trabalho e património.

Há quem diga que o Estado devia pedir desculpa aos jesuítas?

É sempre um acto de dignidade reparar o erro quando se o reconhece. Mas o mais significativo que poderia fazer não era tanto aos jesuítas, mas ao ensino particular, para possibilitar um aumento significativo e concreto da liberdade de educação. De modo a que as famílias pudessem escolher a escola e o género de educação para os filhos, independentemente de condicionamentos económicos e administrativos.

Situação que o Governo não faz?

Tem uma longa tradição esta visão centralista e estatal da educação, que vem desde Pombal e que é mau para o País. Para os jesuítas, esse seria o grande acto reparador.

Sendo tão poucos, como é que os jesuítas fazem tanto?

Há muitos leigos a colaborar na mesma missão, e a nossa acção multiplica-se através deles. O importante é garantir a identidade da missão e que a nossa maneira de ser e de perceber passe para quem colabora connosco.

Há choque entre os jesuítas de diferentes idades e pensares?

Existe uma base espiritual que nos dá este ar de família. A grande diferença entre gerações é que para os novos é mais importante a vida comunitária do que para os mais velhos.

O que mudou mais?

Até há 20 anos era uma comunidade para a dispersão. Vinham refazer as forças e partiam em nova missão, mas as novas gerações dão mais importância à vida em comum e ao trabalho em equipa.

Há choques entre gerações?

Existem diferenças, mas não há choques geracionais.

E com os leigos?

Há questões práticas que é difícil os jesuítas perceberem porque estão nisto a 100% e não têm família nem horários de trabalho.

É a ordem com mais vocações.

É verdade, mas não sei a razão nem temos nenhum segredo. Há um trabalho continuado com a juventude que passa pela exigência e experiências de voluntariado que têm dado frutos em pessoas que se identificam e se querem juntar a nós. |