Jan & companhias

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Um sorriso

O essencial, as mais das vezes, não tem peso algum. Neste caso, o essencial, em aparência, não foi mais que um sorriso. Um sorriso é, muitas vezes, o essencial. É-se pago com um sorriso. É-se recompensado com um sorriso. É-se animado com um sorriso. E a qualidade de um sorriso pode fazer-nos morrer. Contudo, visto que aquela qualidade nos livrara tão bem da angústia dos tempos presentes, nos concedia a certeza, a esperança, a paz., tenho hoje, para tentar exprimir-me melhor, necessidade de contar também a história de outro sorriso.
A. Saint-Exupéry, Carta a um Refém, Grifo, p. 35

Foi então que se deu o milagre. Oh!, um milagre muito discreto. Eu sentia falta de cigarros. Como um dos meus carcereiros estava a fumar, pedi-lhe, com um gesto, que me cedesse um cigarro, e esbocei um vago sorriso. O homem espreguiçou-se primeiro, passou lentamente a mão pela testa, ergueu os olhos na direcção já não da minha gravata, mas da minha cara, e, para grande estupefacção minha, esboçou também ele um sorriso. Foi como o nascer do dia.
Aquele milagre não desenlaçou o drama, apagou-o, muito simplesmente, como a luz à sombra. Já não tinha havido drama nenhum. Aquele milagre não modificou nada que fosse visível. O ruim candeeiro de petróleo, uma mesa com papéis espalhados, os homens encostados à parede, a cor dos objectos, o cheiro, tudo persistiu. Mas todas as coisas foram transformadas na sua própria substância. Aquele sorriso libertava-me. Era um sinal tão definitivo, tão evidente nas suas consequências próximas, tão irreversível como o nascimento do Sol. Abria uma era nova. Nada havia mudado, tudo tinha mudado.
p. 45